Carlos Alberto Faraco
Quais as raízes históricas que explicam a presença do ensino da gramática formal nas escolas brasileiras?
Como o autor responde ao título hamletiano?
Iniciamos nossa escolaridade com pais e professores preocupados e ansiosos em ver-nos alfabetizados, lendo e escrevendo corretamente, fluente, sem erros...
E assim seguimos um caminho onde o aprendizado da gramática faz parte de nossa história escolar, mas esse aprendizado vem carregado de: certos e errados, bonitos e feitos, cultos e populares...
Faraco coloca-nos a par da História que carrega esses conceitos e mostra como podemos trabalhar na escola respeitando também os antônimos.
Há 2.000 a.C os babilônios já se dedicavam ao estudo gramatical, no séc. IV a.C os hindus também tinham uma forte tradição gramatical, assim como os chineses. No séc. I a.C a gramática como a conhecemos foi criada na cultura greco-romana e as reflexões sobre a linguagem vem há mais de 1.000 anos. Utilizavam fontes diferentes para questões sobre a linguagem, uma delas foram as práticas políticas e jurídicas cujo os participantes tinham de desenvolver habilidades da fala para sustentar seus argumentos e serem convincentes. Nasce a retórica com o objetivo de explorar recursos expressivos para conquistar o auditório.
Na era cristã os gregos se dedicaram a estudar, com intenso cuidado, a produção literária de autores consagrados. Percebiam o grego clássico que era a referência diferente do grego falado, os vários dialetos do seu tempo. Como desdobramento dos processos os gregos se esforçavam para o cultivo de um ideal de língua, como dos grandes escritores. Assim vieram a criar a gramática como disciplina intelectual autônoma que foi agregando as três tradições: retórica, lógica, filosófica e normativa.
A correção lingüística do ponto de vista estrutural, todas as formas e variedades são equivalentes. A diferença é de caráter social porque só algumas recebem a qualificação de corretas. Foi com esse tipo de pesquisa que se constituiu a tradição normativa do estudo da língua. Foi uma solução intelectual para os conflitos gerados pela percepção da diversidade lingüística, esta diversidade que ainda aparece em nosso tempo com uma valoração social diferenciada. Outro fator importante de diferenciação são as variedades lingüísticas que mudam com o tempo.
Durante o período medieval a gramática de Prisciano foi adotada como obra de referencia tanto na Europa Ocidental e Oriental, escrita no latim clássico.
Na comunicação cotidiana, estavam em desenvolvimento as línguas vernáculas onde no séc. IX d.C apareceram os primeiros textos escritos nessas novas línguas principalmente em castelhano e português, apesar disso ... “Quando se tratou de organizar, a partir do séc XV / XVI, o ensino da língua vernácula, foi o modelo pedagógico medieval que se tornou a referência. Quer dizer: transferiu-se para o ensino da língua materna uma metodologia que servia para o ensino de uma língua artificial”.
No Brasil no séc. XVI o ensino da língua chegou com os jesuítas, favorecido pela sociedade colonial, seguindo um modelo elitista e artificial. A escolha pela “lusitanização” gerou um “fosso profundo entre o modo como falamos em situações formais e o modo como escrevemos. Há críticas, mas ainda estamos enraizados a norma cultuada.
Para Faraco a escola deve utilizar-se de estudos feitos à norma padrão brasileira real, falada ou escrita, para tanto deve ter contato direto com a língua viva, com textos vindos de diversas fontes (jornal, revistas) e textos literários.
“Temos, hoje, plenas condições de redirecionar nossas relações com o padrão, combinando aquilo que a história moderna da língua consolidou pelas diferentes práticas de seus escritores (a que poderíamos chamar de padrão clássico) com aquilo que efetivamente se usa atualmente no Brasil na fala formal e na escrita (a que poderíamos chamar de padrão moderno)”.
Para Faraco:
“O estudo da gramática faz sentido quando feito de forma contextualizada e funcional” (...) “ seu estudo deve ser feio de modo a destacar a flexibilidade estrutural da língua e a consequente riqueza expressiva a disposição dos falantes: nenhuma língua é um conjunto rígido de expressões".